Sobre o pobre, sobre mim e sobre Jesus…

casahumilde

O pobre é teimoso.

Insiste em trabalhar, com uma carga horária superior a 8 horas diárias, que é somada a mais 2 ou 3 horas de trânsito, em meios de transporte sucateados.

De teimoso, ele volta à rotina dia após dia.

Supera o desgaste do trânsito, a falta de respeito no ônibus, o assédio no metrô, o cansaço acumulado dos sonos sem qualidade e volta ao trabalho no dia seguinte.

O pobre é teimoso.

Cisma de trabalhar e estudar. Arruma tempo para frequentar a faculdade. Isso porque conquistou uma bolsa de estudo por algum (justo) programa social ou paga a mensalidade arduamente.

Após a faculdade, o pobre teimoso insiste em romper as barreiras rotineiras e se atreve a tentar uma pós graduação. Porque não desiste frente às forças contrárias?

Esses pobres de hoje em dia resolveram viver o grito de guerra que os Titãs já cantavam em 1987 e cismaram que “não querem só comida, querem diversão e arte”. Do nada, decidiram que “não querem só comida, querem saída para qualquer parte”.

Eles não cansam e agora fazem insurgir movimentos que denunciam as mortes arbitrárias que acontecem nas periferias, fazendo protestos contra os crimes cometidos por bandidos, por policiais, pela milícia (uma raça nova de bandidos que surgiu do cruzamento dos dois primeiros grupos) e do Estado (o administrador da morte).

Simplesmente, resolveram questionar e denunciar práticas abusivas e compreenderam o que o Rappa já cantava em 1999: “paz sem voz, não é paz, é medo”.

Mas mesmo enterrando suas mulheres, idosos, jovens, adolescentes e crianças vítimas da violência sistemática, o pobre insiste em viver.

Os ricos não entendem porque mesmo sem ter o dinheiro para pagar a prestação do sofá e da TV, ainda assim a família pobre junta umas 6 crianças e leva para o cinema (em dia de promoção, é claro). Isso porque só quem é pobre conhece a necessidade de tirar uma folga da pressão para sentir-se vivo.

As mulheres pobres são mais teimosas ainda. Acostumadas a gerar e educar seus filhos sem a presença dos pais, elas aprenderam a romper o solo e crescer. Parem, amam seus filhos, criam como podem, trabalham e muitas ainda voltam a estudar. Teimosas. Resolvem amar-se, se arrumam, saem, amam outros homens e vivem.

As crianças órfãs de pais vivos e ausentes são mais teimosas ainda. Crescem. Aprendem a cuidar de si. A maioria tem mais caráter e dignidade que o próprio pai, que mora na mesma cidade, mas escolheu ser distante.

Quando adultas, de teimosas, resolvem construir a sua própria família. E esses ‘filhos-da-mãe” por vezes têm sucesso em seus projetos pessoais. Haja teimosia.

O pobre de teimoso festeja. Não apenas em salão de festa e com buffet. Ele celebra em casa, no Habbibs, na calçada com os vizinhos e na pizzaria da vizinhança. E temos que reconhecer, as melhores festas são as do pobre, onde há comida à vontade, danças, sorrisos e outras coisas que não vamos mencionar para não fazer inveja na classe média.

O pobre celebra e fotografa, isso porque insistem em registrar os pequenos momentos de felicidade. O pobre que encontrar contentamento até na comida, vive fotografando e postando seus pratos. É feliz de teimoso.

E eu, como mulher, pobre, ‘filha-da-mãe’, que sempre estudei na escola pública, que sei o que é receber assistência social do governo para fazer compras no mercado, mas que aprendi a me superar dia a dia e hoje tenho 2 graduações, me identifico com tudo isso.

Às vezes, me pergunto com quem aprendi a ser tão teimosa. E sei que não foi com a pobreza em si. Essa esperança inexplicável que nasce em uma região não mapeada da alma me lembra um pobre que viveu há dois mil anos.

Ele não era do Rio, mas era de Nazaré. Jesus era um pobre teimoso e convicto, que pregava o amor e denunciava os desmandos e as injustiças com os pequeninos e indefesos. Ele morreu tendo a certeza de que mudaria o mundo. E não é que Ele conseguiu? Olhando pra Ele, a gente insiste em crer na vida e ter esperanças e isso nos faz prosseguir dia após dia, por pura fé e teimosia.

Flavianne Vaz é Bacharel em História (UGF) e Teologia (FTSA). Pós-graduando em Teologia do Novo Testamento (FAECAD). É membro da Assembleia de Deus – Ministério Crescer (RJ). É comentarista do currículo de Escola Dominical da CPAD. Atua como historiadora no Centro de Estudos do Movimento Pentecostal (CEMP/CPAD).

Deixe seu comentário