Síndrome de “Bela e a Fera”

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“A Bela e a Fera” é um famoso filme de animação produzido pela Walt Disney. É um clássico, diversas vezes premiado, que movimenta milhões de dólares em todo mundo com bilheteria e produtos de todos os tipos (material escolar, roupas, brinquedos, livros, etc).

O musical, que encantou toda a geração de 1990 quando foi lançado pela primeira vez, retornou aos cinemas com força total em 2017, repetindo o mesmo sucesso. Muito bem produzido e com um roteiro romântico, com uma produção que custou cerca de 160 milhões de dólares, o filme arrecadou mais de US$ 1 bilhão em poucos dias de estreia.

Claro que eu, com uma expectativa saudosista, estava lá, na sala do cinema, no dia da estreia. Não poderia deixar de rever a animação que marcou minha infância. Mas, hoje, com um olhar mais amadurecido, saí do cinema com algumas reflexões.

Por que achamos que amor pode nascer em um relacionamento abusivo? Por que achamos bonito uma mulher encarcerada se apaixonar pela fera que a domina, que faz mal aos seus familiares e que a impede de ser livre? Por que achamos que um ser humano que é uma fera (violento e egocêntrico) mudará, como em um ato de mágica?

Não quero aqui fazer campanha contra o filme, mas despertar algumas considerações mais intrínsecas quanto aos tipos de relacionamentos que vemos na vida real, que diversas vezes são espelhados em fantasias.

São assustadoras as estatísticas e os relatos de mulheres que se sujeitam a um relacionamento abusivo, no qual o parceiro, o namorado, o noivo ou o esposo é um ser dominador e controlador. Infelizmente, percebemos que isso acontece até com meninas que estão entrando na adolescência!

Esta situação não é fácil de diagnosticar porque a falta de respeito se manifesta travestida. Ela acontece disfarçada de ciúme, de zelo, de excesso de amor, de preocupação e de cuidados.

Inicialmente, pode até parecer bonito. Mas, os frutos geralmente são isolamento da mulher da família e dos amigos, manipulação emocional, proibições sem sentido, cobranças acompanhadas de gritos e chantagens, liberdade cerceada, imposição da preferência masculina quanto a roupas, comidas e maquiagem da mulher, controle de todos os meios de comunicação, e por aí vai, até aos extremos que são a violência física e em alguns casos a morte da mulher.

As feras ferem. E no Brasil elas estão à solta. Prova disso são os registros da violência contra a mulher. Por exemplo, podemos citar a pesquisa “Visível e Invisível: a vitimização de mulheres de Brasil” , realizada pelo Datafolha, em 2017, a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A análise apontou que 503 mulheres foram vítimas de agressão física a cada hora em 2016, no Brasil. Cerca de 1,9 milhões sofreram ameaça com faca e arma de fogo. Uma média de 1,4 milhões sofreram espancamento ou tentativa de estrangulamento. E isso é inaceitável.

Por isso, não case com a fera; não namore a fera; não se envolva com a fera; NÃO ore pela fera. Você não é responsável por redimir ou mudar ninguém. Mas você é responsável por si mesma, pela sua segurança, por preservar o auto-respeito. Feras ferem. Então, expulse a fera da sua vida. Não permita que ela lhe machuque.

Melhor do que esperar que um “passe” de mágica transforme a fera em um príncipe, é buscar alguém para construir uma união saudável.

Você sabe quais são as marcas de um relacionamento profícuo?

A primeira característica de um relacionamento que vale o investimento e a entrega pessoal não é o amor, a paixão ou o ciúme. É o respeito. Ele não é opcional. Onde não há respeito, também não há amor.

Outro valor importante é a equidade na vida do casal. Ambos precisam ver-se como iguais. Quando isso não acontece, toda a rotina de convivência é construída baseada no senso de superioridade de um sobre o outro. Isso não é um relacionamento amoroso. Ao contrário, pode vir a ser a primeira fase do comportamento abusivo.

Uma terceira marca de uma relação saudável é a parceria entre os namorados, noivos ou cônjuges. A cumplicidade e amizade geram cuidado e apoio entre os dois. Além de fortalecerem a fidelidade mútua.

E finalmente, um quarto aspecto que queremos citar é o desenvolvimento pessoal. Quem está em um relacionamento saudável sempre está crescendo, tornando-se uma pessoa melhor. Quando o homem não gosta do sucesso de sua parceira, algo está errado. É preciso se associar a pessoas que agreguem valor à sua vida e não que gerem impedimentos (de qualquer natureza) ao crescimento pessoal.

Relacionamentos saudáveis não são construídos com feras, nem com belas, nem com príncipes ou com princesas. Eles são viáveis com pessoas normais. Que possuem uma compreensão realista de si mesma. Que não se sente superior ou inferior. Mas que reconhecem a sua humanidade e a do outro também. Relacionamento não é para personagem, é para humanos.

Flavianne Vaz é historiadora. Bacharel em Teologia (FTSA). Membro da Assembleia de Deus – Ministério Crescer (RJ). Trabalha no Centro de Estudos do Movimento Pentecostal (Cemp/CPAD).

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