O último encontro com meu pai

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Há poucos dias, menos de um mês, foi o “dia dos pais”. Dia este que por muitos e muitos anos eu não comemorei (pessoalmente quero dizer), pois meu pai morava há quilômetros de distância. No entanto, eu sabia que lá estava ele, uma presença distante, mas estava ali: meu pai, meu progenitor. Ah! Nossa história é linda (transformada por Deus), tem a ver com José e Jacó, Gênesis 48.11: O Todo-Poderoso, o meu Pai celestial, preparou-me uma belíssima história de amor paternal.

Meus pais se separaram quando eu tinha sete anos de idade. E nos mudamos de Caruaru (PE) para o Rio de Janeiro, capital. Eu era uma criança, e sentia muito a falta de meu pai, mas precisava sobreviver. Tornei-me forte (mais por fora que por dentro). Minha mãe, uma guerreira inigualável (dura nas palavras, mas delicada nos gestos – um ursinho de pelúcia aqui, outro brinquedo ali, para me confortar se eu estivesse triste), sempre me alertava acerca de papai: Ele não liga para você! Porém meu coração não queria acreditar nisto.

Então, aos 18 anos de idade resolvi visitá-lo: Não trocávamos fotos, ele não tinha a menor ideia de como eu havia ficado depois de moça. Então… eu cheguei à pé na cidade de terra batida… fui com uma tia, mas pedi que ela ficasse longe, para que ele não a reconhecesse. Eu queria chegar sozinha, para lhe surpreender. Ele tinha um armazém destes do interior, onde se vendem muitas coisas. Caminhei com passos firmes (meu coração estava prestes a pular, queria chegar primeiro, mas eu tinha um plano: Queria surpreender a meu pai).

Eu estava com uma blusa vermelha; era uma jovem radiante, de cabelos negros e brilhantes. Ah! Que emoção era aquela… Difícil relembrar. Ele… estava atendendo no balcão, magrinho, alto e com seu jeito de sempre (um pouco brincalhão, um pouco rude): Eu me antecipei para não desabar: __ Quero uma Coca-Cola gelada, por favor! Bebi um gole. Percebi que não me reconheceu. Então lhe perguntei: __Preciso pagar, pai? (…) Ele quase desmaia. Ficou pálido e tonto. Eu não sabia o que fazer.

Inexplicavelmente, meu coração virou pedra a partir daquele momento, mas percebi algumas crianças ali (meus irmãos por parte de pai). No entanto eu estava convicta de que eram intrusos na minha casa… a casa das minhas lembranças… quanta saudade eu senti… Mas eram meus irmãos (três, além do que ficara no Rio de Janeiro, meu irmão por parte de mãe). Tornei-me rebelde, o que eu não o era de fato. Porém eu queria me vingar… me vingar da ausência… da saudade… da distância… sei lá. Descontei nas crianças minha insatisfação. Ah! Eu precisava tanto de Jesus. Ainda não o conhecia.

Chegou o dia da despedida, depois de alguns dias com papai, ele me levou à cidade da minha avó, deixou-me em frente à loja onde uma prima trabalhava: Naquele momento de despedida, ele me disse palavras difíceis demais para uma jovem de 18 anos: __ Quando você voltar nesta terra, eu estarei a 7 metros abaixo do chão. Abraçou-me e foi embora. Quase morri de tanto chorar. Enterrei o meu rosto no ombro de minha prima, e chorei… chorei muito (obrigada, prima, seu abraço me envolveu).

Cresci revoltada… saudade de meu pai. De novo não nos vimos por muitos anos. O tempo passou. Casei. Tive duas filhas. E conheci o Senhor Jesus, que me guia e me fortalece na sua Palavra. Então… me identifiquei com a história de José, especificamente o encontro entre ele e seu pai, Jacó, Gn 48.11; cujas palavras são mais ou menos assim: __Eu não imaginava ver mais o teu rosto, meu filho, e agora vejo também os meus netos. E assim eu entendi que Deus me levaria outra vez aos braços de meu pai.

Entendi também que eu não iria sozinha: Ele veria minha descendência… como Jacó: Ele não só veria o meu rosto, mas também o de Duane, minha caçula: __ Oi, pai, estou aqui com sua neta, minha filha. Foi Deus, pai, ele me trouxe. Lembra-se de suas palavras, as que me disse há 33 anos. Eu só tinha 18, agora tenho 51. Eu disse também. O senhor está vivo, pai. Deus é bom. Foi Ele. Foi ele quem me trouxe aqui. Aleluia!

Neste período de nova ausência, nasceu meu irmão caçula, símbolo da promessa de Deus para mim: E meu pai, que teve câncer, e tantas complicações de saúde, sobreviveu mais 33 anos, para que a promessa do meu Deus se cumprisse: Celso me dizia: __Minha irmã, nosso pai está doente, muito doente, mas não vai partir antes de te ver. Eu creio! Verdade, meu irmão. Ele sobreviveu. Glória a Deus!

Mas… há um tempo determinado para todas as coisas… (Ec 3.1) e ele se foi dois anos depois do nosso encontro. Em 2015, nosso encontro. Em 2017, ele se foi. Porém, fico com aquela alegria de dias tão especiais em que estive com papai.

Deus, tu és bom: “Bem aventurado o homem (a mulher) cuja força está em ti, em cujo coração estão os caminhos aplanados”, Sl 84.5.

Edna Solange do Nascimento, autora do livro (ainda não lançado) COM DORES DE PARTO até que Cristo seja formado em vós, tem duas filhas, Diana e Duane: É professora de Língua Portuguesa, atuando em seminários de teologia, escolas e cursos em geral. E, como professora de hebraico bíblico, em formação, criou o Projeto Alef-Beit (Alfabetização em Hebraico), para poder compartilhar o alef, o beit, o gímel, o dálet e as curiosidades da língua hebraica, que encheu seu coração de entusiasmo e alegria.

 

7 Comments

  • Fiquei emocionada ao ler o texto. Principalmente por ser minha mãe e meu avó. Deus é Soberano. Creio que tudo aconteceu no tempo dele e que Ele demonstrou o seu cuidado através do reencontro mesmo após 33 anos. O Senhor é maravilhoso!

  • Obrigada, Sandra, pela oportunidade de relatar esta história. Meu coração está leve, com saudades sim, porém estou em paz, sabendo que o El-shadday cuida de todos os detalhes em nossa vida. Ele, sim, nos surpreende sempre. Aleluia!
    Meus irmãos: Célia, Silvam, Celso, Solon, amo vocês com todo o meu coração, porque sei que meu pai vive em cada um de vocês.
    Saulo, com você, foi toda a minha infância, adolescência e mocidade, sofremos juntos a ausência de nosso pai. Deus te abençoe e te faça prosperar na presença dele.

  • Não conhecia essa história! Muito mim tocou, mais conheço esse senhor si não mim engano seu Abelardo de taquara…alguém mim corija se estiver errada.

  • Querida professora Edna, seu texto é muito profundo e emocionante. Deus tem promessas para nossas vidas e Ele as cumpre. Parabéns!

  • Como é bom poder compartilhar o que Deus tem feito em minha vida. Faço isso por amor ao Senhor e a sua Palavra, que se cumpre em nós. Esta é apenas uma delas, dentre tantas histórias que o Pai celestial me permitiu viver. Obrigada a todos que curtiram, se emocionaram, e se motivaram, sabendo que Deus ainda é o mesmo, o mesmo que abençoou a José: Ele também
    abençoa a mim e a ti. Ele é o mesmo ontem, e hoje, e eternamente. Aleluia!!!

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