Mau funcionamento do intestino afeta qualidade de vida

Você se sente mal-humorado sem explicação evidente? E como anda o seu intestino? Podem parecer perguntas aleatórias, mas as duas questões estão bem relacionadas, segundo especialistas. Muitas vezes, não nos atentamos ao nosso corpo e não percebemos como o mau funcionamento do órgão está ligado ao humor e, consequentemente, à qualidade de vida. A pessoa fica literalmente enfezada (cheia de fezes).

O gastroenterologista Eduardo Antonio André, membro da Federação Brasileira de Gastroenterologia, explica que os únicos movimentos que fazemos de forma consciente no sistema digestivo são engolir e evacuar. Quando os chamados atos voluntários são alterados, todo o órgão é prejudicado. O mau funcionamento do intestino vai desde constipação (intestino preso) à diarreia, que causam não só desconforto, como barriga estufada e gases, mas também atrapalham a rotina do dia a dia.

— O problema afeta a pessoa profissionalmente e socialmente porque ela não sabe quando vai ter vontade de evacuar. Se for na hora da reunião, por exemplo, ela acaba se reprimindo e se sentindo mal. Já o funcionamento normal, a gente nem percebe.

O órgão é tão importante e é considerado o nosso segundo cérebro, pois concentra grande quantidade de serotonina, substância responsável pela sensação de prazer e bem-estar, explica a psicóloga Pamela Magalhães.

— O intestino é considerado o segundo cérebro e a correlação entre os dois órgãos é muito tênue. Toda a qualidade de vida repercute no intestino porque é onde se concentra a maior quantidade de serotonina no organismo. E as pessoas ficam mal-humoradas, principalmente, por não terem controle de si mesmas.

Uma pesquisa recente do instituto CONECTAi Brasil, em parceria com a farmacêutica Sanofi, aponta que 76% dos brasileiros sentem que o funcionamento do intestino impacta diretamente na qualidade de vida. Entre os 1.000 entrevistados, a maioria (82%) não utiliza recursos para auxiliar nesse processo. Porém, entre os que utilizam ajuda para ir ao banheiro, 68% recorrem a alimentos ricos em fibra/integrais. Os demais recursos são laxantes (21%), fibras solúveis (17%) e produtos fitoterápicos (11%).
Reflexo inibido

André explica que a relação do cérebro com o intestino começa logo depois da alimentação.

— Toda vez que a pessoa se alimenta, inicia-se o movimento craniocaudal, que é um reflexo. Se a pessoa inibe esse reflexo, ele se desordena. E esse estímulo começa sempre depois das refeições. Com o corre-corre, as pessoas não o respeitam e perdem o controle.

Algumas doenças, como diabetes e hipotireoidismo, afetam o funcionamento do intestino, bem como determinados medicamentos — em especial os antibióticos — porque mexem com a microbiota do órgão, que são os microrganismos que moram dentro do intestino. Esse desequilíbrio na flora intestinal afeta o metabolismo e a imunidade. No entanto, a maioria dos problemas intestinais são ligados a hábitos errados, com alimentação não balanceada e pobre em fibras, pouca água e sedentarismo, esclarece o especialista.

— O consumo ideal de fibras é entre 25, 30 g de fibra, mas dificilmente as pessoas alcançam 10, 12 g. E tem que tomar de 1,5 a 2 litros de água por dia. Mas o mais importante é ensinar o reflexo de evacuação. Tem que tentar evacuar, não necessariamente depois das refeições, mas seria o ideal. E nada de levar laptop para o banheiro para ler notícias porque é preciso se concentrar e fazer força para estimular o intestino.

Evacuar ainda é tabu para mulheres

A relação entre intestino e humor é ainda mais sentida pelas mulheres, justamente porque elas têm dificuldade para falar sobre o assunto e “seguram mais”. De acordo com a psicóloga, 89% das mulheres relatam problemas de humor devido ao mau funcionamento do intestino, porque o evacuar ainda é visto como tabu.

— Por uma questão cultural, desde muito cedo, a mulher não lida com a liberdade de falar em evacuação e a ideia de a pessoa ir ao banheiro não é correlacionada ao fato de ser limpa. A mulher, geralmente, quer ser vista como linda, princesa, perfeita. Ela jamais vai chegar a um bar com os amigos e falar sobre isso, muito menos em um encontro amoroso. E isso pode se transformar em um problema na vida dela. Já o homem, fala com a maior tranquilidade.

De acordo com a psicóloga, o mau funcionamento do intestino prejudica inclusive a vida sexual da mulher.

— Quando a mulher não lida bem com a questão intestinal, ela tem maior estresse, tensão, constipação, flatulência, inchaço, dor de cabeça e isso repercute no mau humor, na concentração e na sexualidade. Ela se sente gorda, cheia, estufada, e não atraente. Fica só com vontade de deitar e tirar a calça.

De acordo com Pamela, as mulheres que sofrem com isso deveriam priorizar a saúde intestinal e dar importância a hábitos saudáveis.

— Ir ao banheiro é natural e faz parte da nossa vida. Quando a mulher prende, ela vai postergando e deixando para última instância. O cérebro vai registrar a ideia de que o ato tem que ser obstruído. Depois, o intestino preguiçoso não funciona quando gostaríamos, que é quando chegamos em casa, onde nos sentimos seguras.

Laxante está liberado?

De acordo com o gastroenterologista, a frequência de evacuação considerada normal é de três vezes por semana a três vezes ao dia, mas é importante que seja de forma satisfatória. Se a pessoa vai a banheiro três, quatro vezes no dia, mas se sente desconfortável, a evacuação foi insuficiente. Isso não tem a ver com diarreia, mas sim com intestino preso, porque desiquilibrou o funcionamento desde o início. Se evacuar mais do que o habitual, vai depender da consistência. Se as fezes forem liquefeitas, é sinal de diarreia.

Em alguns casos, o uso de laxantes é recomendado, mas apenas por tempo determinado, orienta o especialista.

— Em viagens, é normal fica constipado por causa da mudança de rotina. Aí, a pessoa está no terceiro dia sem ir ao banheiro, com a barriga cheia e incomodada. Nesses casos, pode usar. Há pessoas que são constipadas cronicamente e precisam usar o medicamento a vida inteira porque o intestino não vai funcionar apenas com estimulação. Mas o correto é usar com moderação.

Alguns alimentos, em especial, as verduras escuras, são chamados de prebióticos, e favorecem o crescimento de bactérias boas, que são maioria e regulam as funções do intestino. Quando ocorre desorganização, a pessoa fica mais suscetível a doenças, como síndrome do intestino irritável [distúrbio intestinal que causa dores na barriga, gases, diarreia e constipação], diabetes, obesidade, doenças autoimunes, alergias, inflamações, depressão e câncer.

André ainda ressalta que a higiene após evacuar também é importante, principalmente para as mulheres por causa da proximidade entre vagina e ânus, que favorece o surgimento de infecções.

— Sempre uma higiene superficial com papel úmido, sempre que possível. O ideal é tomar banho depois de evacuar por uma questão de higiene.

Fonte: R7

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