Dependência maternal no casamento

Por livre vontade, centenas de pessoas se unem com um parceiro(a) todos os dias. Segundo o último censo do IBGE, mais de 56 milhões de homens e mulheres são casados no Brasil. A indústria do casamento movimenta mais de 15 bilhões de reais por ano.

Estes dados ilustram bem quantas pessoas se dedicam a fazer um projeto de casamento e quanto elas estão dispostas a investir na noite de celebração. Mas, o que acontece depois da festa? Depois da lua de mel? Depois dos primeiros meses, em que tudo é uma grande novidade? Vem a rotina, o dia a dia comum, as responsabilidades, as diferenças e as heranças familiares.

E é nesta fase que os recém-casados começam a entender que o casamento verdadeiro nada tem a ver com festa, bolo e fotos. Mas sim com relacionamentos, atritos, divisão de tarefas domésticas, cumplicidade, diversão em família, aproximação com os sogros e cunhados, prestação de contas, e claro, amor e desejo.

É também nesta etapa que aqueles que se casaram com expectativas irreais (tais como relação sexual todos os dias, nenhum contato com sogros, prosperidade financeira contínua, etc) se dão conta da realidade. Infelizmente, é também nesta fase que muitas mulheres se sentem sozinhas, mesmo estando casadas.

Jovens, casadas há menos de um ano, buscam aconselhamento para lidar com a solidão e sobrecarga no casamento. E diversas queixas são justas. Muitas estão decepcionadas com o cônjuge que não atende a expectativas mínimas.

Essas mulheres, geralmente próximas dos 30 anos, são cristãs, possuem graduação e pós, estão cheias de vida e saúde, são maduras e optaram por construir uma família com seu esposo. E após o casamento, se dão conta de um abismo de maturidade entre ambos. Seus maridos ainda estão construindo sua carreira, não possuem controle financeiro, não encaram os problemas com a seriedade devida e são descomprometidos com as responsabilidades domésticas.

Essas mulheres descobrem-se casadas com meninos de 30 anos, altamente dependentes. Elas não sabem como lidar com a dependência maternal do marido.

Mas por que isso tem acontecido com essa geração?

Os censos do IBGE apontam que a partir de 1984 os índices de divórcio cresceram. O que se justifica legalmente na medida em que a constituição de 1988 permitiu que o divorciado voltasse a se casar quantas vezes quisesse. Os índices também apontam que a maioria dos divórcios ocorreu em casamentos com menos de 10 anos e com a presença de filhos (os quais, em 90% dos casos ficavam sob a guarda da mãe).

O que as estatísticas não conseguem medir é o impacto social na vida dos adultos que cresceram sem referência de paternidade. Infelizmente, temos observado que dependência maternal tem se instalado em relacionamentos em que um ou ambos os cônjuges cresceram sem um pai presente e comprometido com sua educação.

E o que vemos nessa convergência de situações é uma mulher criada apenas por uma mãe que a ensina a estudar, se desenvolver, ter um trabalho, ser independente e ter iniciativa diante dos problemas da vida. E (ou) um rapaz criado por uma mãe que, por ser só, trabalha, estuda, cria o filho, é independente, tem iniciativa e precisa resolver tudo sozinha.

Quando casam, nenhum deles tem uma referência sólida de relacionamento matrimonial. A mulher deseja que o marido tenha tantas capacidades e competências quanto ela e que seja presente e comprometido. E o homem entra no casamento com a referência da mãe (aquela que resolve todas as demandas do lar). Obviamente, há um choque.

O que fazer diante desse quadro?

Primeiramente, precisamos entender que o casamento é uma aliança estabelecida entre duas pessoas que decidem se comprometer um com o outro. O casamento é uma relação criada por Deus e fundamentada no amor, respeito, honra e cumplicidade mútuos.

Este desígnio de Deus (“…deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-á a sua mulher…” Mc 10:7) para o casamento destina-se apenas a pessoas adultas. É pré-requisito também para o estabelecimento dessa aliança por vontade própria. Afinal, é inadmissível, ao menos no Brasil, um casamento compulsório.

Assim fica claro que de modo algum a mulher é vitima nessa situação. A escolha pelo casamento foi uma decisão pessoal e avaliar a identidade e maturidade do noivo era uma obrigação pré-nupcial. O casamento é uma decisão que precisa ser administrada depois do ‘sim’.

De modo que, ao invés da desistência, incentivamos as mulheres a encararem as desigualdades no relacionamento. E para isso propomos algumas saídas.

1º) Não se proponha a ser mãe do seu marido – Assumir a dependência maternal causará muitos danos no relacionamento. A parceria entre o casal precisa estimular o desenvolvimento emocional e o amadurecimento de ambos. Seja cúmplice, amante, amiga, companheira do seu esposo. Mãe, nunca.

2º) Não se sujeite a ideias e propostas que parecem bíblicas, mas que reforçam a dependência maternal do homem à esposa e que reforçam a isenção do marido sobre suas responsabilidades. Biblicamente, o esposo é o responsável diante de Deus pelo casamento. É chamado à liderança familiar. Qualquer mensagem contrária a isso nega a Bíblia. Pode ser até machismo disfarçado de teologia.

3º) Faça amizades com outros casais. Amigos casados, que vivem um estilo de vida semelhantes ao seu, serão essenciais para os momentos bons e ruins. Referências e exemplos externos também são bons para ajudar a nortear as decisões.

4º) Estude sobre matrimônio. Leia livros, faça cursos, vá a congressos, assista a palestras sobre casamento junto com seu esposo. A jornada matrimonial ficará mais fácil se você tiver ferramentas para lhe dar com os desafios diários.

5º) Estabeleça princípios, valores e responsabilidades. Recuse-se a cuidar de tudo. Divida as tarefas do lar. O casamento é para isso mesmo.

6º) Busque ajuda profissional sempre que necessário. Não tenha medo de encarar um tratamento terapêutico. Um bom profissional pode auxiliar aos dois a se tornarem melhores um para o outro.

Flavianne Vaz é Bacharel em História (UGF) e Teologia (FTSA). Casada com Miguel Melo, é mãe de Sarah (2 anos). É membro da Assembleia de Deus – Ministério Crescer (RJ).

Comments

7 Comments
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    Carla Melo
    maio 24, 2016 Reply

    Eu achei este texto incrível!!!! Quero parabenizar a escritora Flavianne Vaz! Deus continue te abençoando!
    Como líder vou usar as informações para multiplicar para outras pessoas que passam por problemas semelhantes.
    Quase que dependemos dos relacionamentos de “sucesso” para conseguimos um propósito e sentido na vida. Somos acostumados com histórias de contos de fadas, mas quando nos deparamos com a realidade vemos que as coisas não são bem assim! impossível. De facto, Para que o relacionamento seja consolidado, terá de existir uma luta continua, obstáculos a ultrapassar e um desejo de obter mais do aquilo que é oferecido. Quanto maior são os desafios se o casal permanecer firme, juntos mais consolidado fica este relacionamento. A prioridade é a família. Concordo que todas as ferramentas éticas podem ser usadas para proteger e cultivar o casamento.
    Muito bom este texto escritora Flavianne Vaz!

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    Maria Angela
    maio 24, 2016 Reply

    Parabéns minha linda! Que matéria maravilhosa, atual e muito esclarecedora para os dias que vivemos. Deus abençoe grandemente vc e sua família. Bjs

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    Priscila
    maio 24, 2016 Reply

    Muito bom Flavianne retrata bem a realidade que infelizmente temos vivido.

    Como você mesmo falou muitos pais se separam, e os filhos estão sem referência masculina dentro do lar por serem criados penas pelas mães. E isso influencia de alguma forma quando se casam.
    Ainda bem, que quando Deus entra ele muda a história.

    Assunto delicado mas que você abordou de forma direta e esclarecedora.

    Que Deus continue te abençoando e te dando sabedoria!!

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    Tânia Regina Rosa do Couto da Silva
    maio 24, 2016 Reply

    Muito boa q explanação da realidade do casamento no começo e o Conselho para amigos casais do mesmo nível. Parabéns pela matéria.

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    Selma de Sousa Mello
    maio 24, 2016 Reply

    Li o artigo, gostei intensamente é o que vemos em muitos lares, consequentemente vindo a óbito os casamentos.
    Muito bom, que Deus te abençoe Flavianne. Parabéns.

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    Isabelle de Jesus
    maio 25, 2016 Reply

    Excelente texto Flavianne! Foi muito bem descrita a realidade dos dias de hoje.

    Isso realmente acontece, vemos corriqueiramente relatos parecidos. E lidar com isso torna-se bastante complexo, também, porque normalmente não temos apoio na família, nem na igreja etc… Isso não porque as pessoas não queiram ajudar, mas devido à crença de que a mulher sempre deve ceder, e suportar todas as debilidades do esposo, seja elas quais forem, mimando-o cada vez mais e dando reforço ao comportamento imaturo que foi formado conforme explicado no texto. Mas essa é uma carga que ninguém consegue suportar. Por isso ouvimos falar que as mulheres são estressadas, falam demais, levam tudo muito à serio… Fica esquecido que o casamento é uma troca e que precisa ser de mão dupla.

    Hoje, me entristece demais ver que, infelizmente, o termo “mulher sábia” foi distorcido. Observe que, normalmente é utilizado em situações onde a mulher é, ou acredita-se que deveria ser, submissa, carinhosa e bondosa enquanto o homem faz coisas inadmissíveis ao casamento e ao respeito mútuo (como traições, vícios, e desprezo ao seu papel dentro da família). Quanta distorção! Ai, o caminho natural é que depois que o homem já é velho, não tem mais pique, e nem charme pra levar a vida descompromissada que levava, resolve sossegar e ser mais “família”. Bem, e o que dói mesmo é que chamam isso de milagre, dão cultos em ações de graças e testemunho. Uma lente que tem distorcido a realidade e empurrado mulheres de bem, e homens também, para uma vida triste, de sofrimento por longos anos, onde só se é “feliz” ou “mais ou menos feliz”, num pequeno pedaço do fim de sua vida, afinal, “todo casamento tem problemas né rs”. Mas ei fica a pergunta: Será que vale a pena?

    Sei que este comentário pode parecer duro, mas é que esta é realmente a parte dura da história e negar não ajuda em nada…

    Mas sabemos que, longe disso existem casais que se amam mutuamente, amor este que tenho por sinônimo cuidado e preservação. Onde ambos se esforçam e se dedicam, para a manutenção em si e no parceiro de tudo de bom que foi visto na época do namoro. E ai sim, existindo esse sentimento e postura, acredito inteiramente que pode-se vencer qualquer problema ou dificuldade, seja ele de qual ordem for. Ah como é bela a vida a dois! Admiro, quero, insisto e recomendo.

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      Flavianne Vaz
      maio 30, 2016 Reply

      Amei este comentário! O artigo é só um ponto pé inicial nessa conversa. Há muitos aspectos que precisa ser (re) discutidos!

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